AFRODITE



Deusa da mais sedutora beleza, cujo culto, de origem asiática, é celebrado em numerosos santuários da Grécia, principalmente na ilha de Citera. Filha da castração de Urano (o Céu) derramado no mar, por Cronos seu filho. Afrodite é esposa de Hefestos o Coxo, por ela ridicularizada em varias ocasiões. Simboliza as forças irreprimíveis da fecundidade, não em seus frutos, mas no desejo apaixonado que acendem entre os vivos. É representada em meio às feras que a escoltam, como neste hino de Homero, onde o autor começa por evocar seu poder sobre os deuses e, a seguir, fala em seu poder sobre as feras: Ela faz perder a razão até mesmo a Zeus, que ama o raio, a ele, o maior dos deuses...; mesmo esse espírito tão sábio, ela o ilude, quando quer... Alcançou a Ida das mil fontes, a montanha-mâe das feras: atrás dela puseram-se a caminhar, fazendo-lhe festas, os lobos cinzentos, os leões de pelo fulvo, os ursos e as panteras céleres, insaciáveis de filhotes de corça. Ao vê-los, ela regozijou-se de todo coração e atiçou o desejo em suas entranhas; então, foram todos ao mesmo tempo acasalar-se na sombra dos pequenos vales entre as montanhas. É o amor sob sua forma física, o desejo e o prazer dos sentidos; ainda não é o maior em um nível especificamente humano. No nível mais alto do psiquismo humano, onde o amor se completa pela união com a alma, cujo símbolo é Hera, a esposa de Zeus, o símbolo Afrodite exprimirá a perversão sexual, pois o ato de fecundação só é buscado em função da primazia do gozo a que a natureza o vincula. Assim, a necessidade natural exerce-se perversamente. Todavia poder-se-ia indagar se a interpretação desse símbolo não haverá de evoluir com o prosseguimento das pesquisas modernas sobre os valores propriamente humanos da sexualidade. Mesmo nos meios religiosos, de uma moralidade exigente, o problema deve ser estudado no sentido de saber-se se o único fim da sexualidade é a fecundidade, se não seria possível humanizar o ato sexual independentemente da procriação. O mito Afrodite poderia permanecer por algum tempo ainda como uma perversão , a perversão da alegria de viver e das forças vitais, não mais porque a vontade de transmitir a vida estivesse ausente do ato do amor, mas porque o próprio amor não estaria humanizado; permaneceria no nível animal, digno dessa feras que compõem o cortejo da deusa. Entretanto, se houvesse finalmente uma evolução, Afrodite poderia surgir como a deusa que sublima o amor selvagem, integrando-o a uma vida verdadeiramente humana